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O Velho Irracionalismo Brasileiro

Estranhem o que não for estranho

Tomem por inexplicável o habitual

Sintam-se perplexos ante o quotidiano

Tratem de achar um remédio para o abuso

Mas não esqueçam que o abuso é sempre a regra.

 Bertold Brecht

Sem exagero, podemos falar em um obscurantismo crescente no Brasil. Parece que os argumentos reflexivos, lógicos e embasados em fatos estão perdendo, cada vez mais, credibilidade e território para os achismos, as opiniões e o senso comum. A impressão é de que hoje o senso comum é soberano e soberbo, o novo ídolo, a grande aspiração. Não mais aquele senso comum signo de incultura ou ignorância legítima, mas um senso comum torpe e autoritário que visa desautorizar qualquer manifestação de pensamento crítico, seja pelo grito ou pelo deboche. Aparentemente, “em todas as trincheiras e em todas as frentes, a razão está na defensiva”, já dizia Sergio Paulo Rouanet[1]. Claro que isso não é nenhuma novidade, não é a primeira e nem a última vez que isso acontece. O que vemos é somente a nova roupagem do velho irracionalismo brasileiro: o obscurantismo.

“Obscurantismo”? Sim! Como assim? Ora, “obscurantismo” consiste, precisamente, na prática de impedir, deliberadamente, que os fatos e os detalhes de um determinado assunto tornem-se conhecidos e claros, ele os torna obscuros. Não se trata, portanto, de mera incultura ou ignorância, mas de um esfumaçamento da realidade, uma oposição sistemática à difusão de instrução e cultura. Se conhecimento é algo que se constrói, o obscurantismo é uma máquina de demolição.

Considerar essa situação nos ajudaria muito a pensar o fenômeno “Fake News” como uma estratégia de campanha não só mentirosa, mas obscurantista. E tal transposição é inevitável, dado que a iminente ascensão desta metamorfose do irracionalismo seja correlativa ao crescimento do protofascismo no Brasil. Não é por coincidência, é por causalidade. Fascismo e irracionalismo estão intimamente intrincados. 1) porque, diferentemente do que alguns pensam, o fascismo não é uma ideologia política sólida e acabada, não se fundamenta em nenhuma filosofia, é antes uma colcha de retalhos de ideias políticas e filosofias despedaçadas, segundo Umberto Eco[2]: “uma colmeia de contradições”, “um desconjuntamento ordenado”. 2) o irracionalismo, por sua vez, é oportunista e parasitário, permeia o senso comum e captura dele as tendências em voga – que muitas vezes não tem nada de irracionais em si – e as utiliza para seus próprios fins.

Como uma confusão estruturada, o obscurantismo é sustentáculo do atual protofascismo brasileiro. Anti-filosófico e anti-intelectual por excelência, sua expressão mais visível está na difusão e nas consequências das “Fake News” e da “Olavagem cerebral”.

Filosofia X Obscurantismo

A razão deve tornar transitáveis todos os terrenos, limpando-os dos arbustos da demência e do mito.

Walter Benjamin

 “Ninguém quer saber de jovem com senso crítico”[3] – disse o candidato fascistoide para uma plateia de militantes em Vitória (ES). Vindo dele isso faz muito sentido. É coerente, honesto e até autoexplicativo, pois o pensamento crítico opera por distinções, principalmente. Distinções desarticulam e denunciam as contradições, como por exemplo: defender, ao mesmo tempo, valores cristãos, tortura e pena de morte. O pensamento crítico esclarece na medida em que põe em crise os raciocínios pautados em sentenças antagônicas, verifica a consistência dos argumentos.

O protofascismo é uma grande colagem de contradições, por isso só prolifera quando o ato de distinguir parece impossível ou errado, quando as divergências são encobertas e as desigualdades naturalizadas, quando a violência é tida como algo banal, quando problemas extremamente complexos parecem ser resolvidos por fórmulas simples, quando pensar parece tolice. Não basta, por exemplo, dizer que o Brasil está sob uma suposta “ameaça comunista”, é necessário obscurecer ao máximo o significado próprio do que é o comunismo. A ideia de “comunismo” não pode ser esclarecida, mas deve se manter fosca e confusa. O mesmo se aplica ao termo “corrupção”, que foi despregado de seu significado próprio e foi tornado uma palavra-ônibus, uma palavra-coringa, que só existe para acusar e deslegitimar o adversário. Definir e delimitar o significado de “comunismo” e de “corrupção”, entre outros termos, parece impossível pelo senso comum obscurecido.

A disseminação do irracionalismo, função do obscurantismo, é justamente essa: manter uma aparente coesão das narrativas protofascistas – por mais contraditórias e absurdas que sejam – por meio da confusão e da desautorização dos discursos contrários, por mais criteriosos, lógicos, razoáveis e baseados em pesquisas científicas que sejam. Daí advém seu anti-intelectualismo.

Tomando como ponto de partida as reflexões de Umberto Eco em Fascismo Eterno, podemos caracterizar esse anti-intelectualismo por duas propriedades fundamentais do fascismo: a “recusa da modernidade” e o “culto da ação pela ação”. Recusar a modernidade é consequência do tradicionalismo fascista. Mesmo o fascismo italiano e o alemão (nazismo) adorando o desenvolvimento tecnológico, seu apreço pela modernidade era simplesmente alegórico e instrumental, “era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no ‘sangue’ e na ‘terra’ (Blut und Boden)”, do mesmo modo como, no Brasil, o crescente protofascismo se ergue pela defesa da tradição “Deus, família e propriedade privada” e da ideologia do “conservadorismo nos costumes”, o que, em última instância, se traduz numa tentativa de teoria do conhecimento conservadora que adota uma perspectiva teocrática e geocêntrica. Já o culto da ação pela ação consiste na crença de que a ação é bela e moral em si. Deve, portanto, ser realizada antes de qualquer reflexão. Pensar seria perda de tempo e castração, por isso mesmo que “ninguém quer saber de jovem com senso crítico”. A ação deve ser imediata e irrefletida, rápida e precoce como um tiro. A frase tão em voga, “bandido bom é bandido morto”, ilustra com perfeição o culto da ação pela ação: o assassinato de um criminoso é tido como uma ação moral em si mesma, por isso é tida como algo a ser incentivado e aplaudido. Parte-se da premissa de que o permanente estado de guerra é um estado de paz – por exemplo, defender que o armamento do “cidadão de bem” garantiria a segurança pública – o que implica, de modo colateral, num culto à morte: não é por acaso que o grito de guerra dos fascistas espanhóis (falangistas) fosse “Viva la muerte”.

A lógica deles é simplista, qualquer um que questione a validade moral dessas asserções é “defensor de bandido” e deve ser rechaçado. Daí a suspeita com relação à cultura e ao mundo intelectual, ambos estão relacionados com atitudes críticas, atitudes que põe em crise raciocínios frágeis e preguiçosos. Por isso que os obscurantistas do protofascismo brasileiro insistem em desqualificar as universidades como “grandes centros de doutrinação comunista”, porque a cultura e a instrução são seus maiores adversários. O intuito é blindar as pessoas da reflexão e da criticidade. Se a universidade é um ambiente que as promove, deve ser pintado de inimigo: de “comunista”. Como naquela declaração atribuída a Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista: “quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”.

De acordo com Theodor Adorno: “como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos”[4]. Ora, o principal fator de obscurecimento é justamente o ódio e, como bem se sabe, ódio é irracional. Para sustentar aquela “colmeia de contradições” é necessário o apelo ao ódio, a mobilização da frustração social e do ressentimento das massas, é preciso tornar um grande grupo de pessoas em uma massa acrítica, unificada e uniformizada pelo ódio.

Uma pessoa meramente inculta ou ignorante não é necessariamente acrítica, muitas vezes o estado de ignorância é o estopim da reflexão. Deparar-se com aquilo que se desconhece pode levar ao espanto e, segundo Aristóteles, é pelo espanto que se começa a filosofia: é preciso surpreender-se, espantar-se com o real para querer questioná-lo. A pessoa obscurecida é tornada acrítica na medida em que fica incapaz de ser tomada pelo estado de espírito do espanto filosófico. Para ela, não há enigmas. O real está dado, posto, pronto e acabado. Não há o que questionar, tudo é óbvio. Querer investigar os fundamentos do real é uma tolice e um capricho. A suspeita, a desconfiança e o mínimo de criticidade que poderíamos esperar das pessoas que se deparam com “Fake News” absurdas como a das “mamadeiras eróticas” se dissolve por completo. Afinal, as “Fake News” mobilizam e exprimem, sob a forma de factoide, um sentimento que unifica e uniformiza as massas.

por Roy Sollon

 

Fasc1smo
 “Fasc1smo” de J. Murillo: https://www.instagram.com/j.murillo45/

 

Apêndice:

O Poder das Fake News

Pretendo realizar esta pequena análise do fenômeno das fake news a partir de algumas perguntas norteadoras principais: qual o alcance das fake news? Qual seu poder? Produzem as mentalidades profundamente ou controlam as mentalidades independente de sua produção? Não pretendo responder a estas questões pontualmente, mas tão somente utilizá-las como perguntas norteadoras do sentido desta análise, e elencar respostas que nelas esbarrem.

Pois bem. O princípio a que me atenho é que a pulverização da verdade dá margem à validação da mentira. A pulverização da verdade é um fenômeno que acontece pela mutação constante dos canais de divulgação dos fatos de ancoragem da verdade dos discursos. No meio digital de publicação, é muito mais rápido publicar uma notícia, e isso faz com que as tais plataformas – as digitais – sejam movediças. A consequência disso é que a quantidade de notícias aumenta e a busca por uma notícia específica se dificulta. Não é possível, pelo menos facilmente, confirmar se um boato é verdadeiro ou não. O acesso a conteúdo jornalístico fidedigno (os fatos de ancoragem da verdade dos discursos) torna-se mais difícil. E tem gente que se aproveita dessa confusão oriunda desta “tecnologia líquida” para fins políticos fascistas.

Estes são os propagadores das fake news. Eles se deram conta desta dificuldade: aproveitaram-se da confusão gerada pela mutação acelerada das plataformas digitais de notícias e passaram a discursar verdades excluindo a necessidade de seus fatos de ancoragem. A bem da verdade, os fatos de ancoragem já não são muito bem requisitados por uma grande parcela dos leitores, pois já aquiesceram à dificuldade crescente de encontrá-los. O que aconteceu então é que eliminou-se um elemento da equação que já estava legado à secundariedade. Se algo torna-se cada vez mais difícil de encontrar, então logo este algo, na prática, deixará de existir – ainda mais quando existem esforços bem evidentes de indivíduos específicos indo de acordo com esse intuito. Sendo assim, aqui se revela mais um nível de exploração: é possível compreender que os propagadores das fake news não só se aproveitam da pulverização da verdade – mas também fazem uso da tendência dos eleitores a, por causa mesmo de sua pulverização, ignorar os fatos que ancoram as verdades objetiva e historicamente. Há, pois, um ataque constante e inevitável, e um crítico e encomendado.

Talvez nos perguntemos por quem promove a mutação dos canais de divulgação.  Mas logo nos daremos conta de que ninguém, especificamente – trata-se de um fenômeno contemporâneo, decorrente da digitalização da informação e aumento da velocidade de sua publicação. Sendo assim, este não é o problema mais urgente. Nem sequer é um problema. O problema é, aí sim, a retirada do fato de ancoragem da verdade do discurso da equação, e sua descredenciação quanto elemento necessário à credibilidade da informação apresentada. Quando o fato de comprovação da verdade deixa de ser importante no crédito da informação, então o crédito da informação passa a ser determinado pelo poder de polêmica que a informação possui. As notícias têm mais crédito quanto mais capazes são de movimentarem os afetos. Daí as eficácias das fake news: um público necessitado de respostas convenientes para problemas urgentes não checará nenhuma nova informação que a ele chegue, já não procura respostas suficientes. O que o público quer é correspondência de afetos. Se os boatos vendem a ideia de que há um grande líder que os compreende dentro de seu ressentimento, bombardeando-lhes dia a noite com polêmica em detrimento do pensamento crítico, então se tem o fenômeno das fake news como sendo uma ferramenta de consolidação de um determinado poder político.

Estão tirando, tendenciosamente, uma parte importante de uma equação que já se encontra naturalmente frágil. Quais são, então, os efeitos desta exclusão? Resposta: a alienação dos leitores destas notícias, que desemboca em seu controle; a instauração das fake news como meio popularmente legítimo de informar-se. Se a pulverização da verdade é inevitável por causa da tecnologia de nosso tempo, então o problema verdadeiro é a utilização tendenciosa desse caráter pulverizado da verdade para legitimar as notícias veiculadas a despeito de seu pareamento ou não com o mundo objetivo.

Como conclusão, é possível notar que 1) as fake news produzem mentalidades na medida em que os indivíduos que se informam a partir delas e deixam de exercer a capacidade crítica da pesquisa, guiando-se tão somente por polêmicas; 2) as fake news controlam mentalidades à medida em que tornam este não exercimento da crítica um hábito, apelando à dificuldade de acesso aos fatos de ancoragem da verdade do discurso; 3) o poder das fake news é a alienação.

por Iury Cascaes

 

[1] No ensaio: “O novo irracionalismo brasileiro”, da obra “As Razões do Iluminismo”.

[2] https://deusgarcia.files.wordpress.com/2018/06/eco-o-fascismo-eterno.pdf

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/ninguem-quer-saber-de-jovem-com-senso-critico-diz-bolsonaro-em-vitoria.shtml

[4] https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/25/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo/?fbclid=IwAR3ulBs8ZEdQicAr9q6rnhaoViaPh_rofCK0Z_SrK55thttnlBTxOyOtp38

 

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